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Mais amor, por favor.




Existe uma dor enorme que reside escondida atrás de qualquer ato. Raramente nos damos conta que sentimos essa dor e essa falta de consciência é justamente o que se poderia chamar de “felicidade” – é bem como diz o ditado popular: “a ignorância é uma bênção”. Para os que sabem de sua própria desgraça, resta sofrer, seja em silêncio ou publicamente.

Sofrer em silêncio é difícil porque dói muito mais. É preciso ter uma atitude quase estóica para se agüentar uma vida assim. Cagam na nossa cabeça, mas a gente não revida. Como Martin Luther King, damos a outra face e apresentamos ao mundo apenas o melhor de nós, ainda que isso não nos pareça o melhor para nós.

Escancarar para a humanidade que tudo é uma merda é igualmente problemática. Se há, por um lado, o alívio da frustração gerada pelo silêncio, há, por outro lado, a dor da rejeição. Ninguém gosta de bebês chorões – mesmo os próprios bebês chorões: já existe tanta dor na nossa vida que não estamos nem aí para o que pesa na cabeça alheia. Se algo está errado com os outros, eles que se danem. “Já tenho problemas demais pra me preocupar com isso”. Mas não se assustem caso se reconheçam nessas palavras: o ser humano, até o dito altruísta, é egoísta por natureza; ele sempre busca a satisfação pessoal acima de tudo, ainda que esta realização resida na entrega às realizações de outrem.

Nessa parada louca que a gente vive, nesse mundão caótico e pueril, que sentido pode ter a vida? Há quem busque refúgio na religião – e não me entendam mal, se isso funciona para vocês, acho ótimo! -, procurando o conforto na próxima vida, no além-vida ou numa retidão da vida atual. Funciona pra muita gente – é só ver como encontrar Deus ajuda os viciados a se livrarem dos malefícios do seu vício em particular.

Outras pessoas, por outro lado, lidam com esse problema através das drogas, sejam elas lícitas ou não. Essa parcela da população pode ser enquadrada em duas categorias sociais: um cidadão normal, caso ele não ceda aos excessos e ainda cumpra seu papel na sociedade; ou um problema social se ele não for capaz de se automoderar e, portanto, prejudicar o desinteresse alheio.

O primeiro grupo é composto pelos trabalhadores-padrão que estão na zona do aceitável. Trabalham em empregos os mais variados, chegam a suas casas, bebem sua cerveja (ou uísque, ou tomam remédios, ou fumam maconha, tanto faz, na verdade, eventualmente batem na mulher ou nas crianças (ainda que seja “de leve”, só em momentos de estresse). Não há, para os padrões do mundo, nada de errado com essas pessoas – elas pagam suas contas e normalmente não nos incomodam.

Já os que pertencem ao segundo extrato que selecionamos são aquelas figuras que costumamos desprezar. Mendigos, bêbados, drogados, minorias étnicas, minorias religiosas, prostitutas, comunistas... Não há uma distinção exata de quem deve ser enquadrado nesta subcategoria de ser humano. Só precisamos detestá-los por serem denúncias vivas do nosso próprio descaso para com o mundo. A mera existência desses seres que cometem excessos de alguma natureza - aos nossos olhos – já é suficiente para que os desprezemos. Eles nos custam dinheiro, já que necessitam do apoio do governo. Eles também nos incomodam pedindo esmolas, comida, roupas, empregos ou direitos iguais. “Ora, por que não param de reclamar e vão trabalhar?”. Esses são os desgraçados que encaramos como problemas sociais.

 Hoje em dia vivemos numa sociedade repleta de grupos requisitando seus direitos: Mulheres, negros, índios, gays, pobres e oprimidos. “Que se danem!” é o que normalmente se pensa nessas horas. “Querem roubar nossos empregos, nossas vagas na universidade, nossas terras, nossa vida!”. Buscamos, então, por soluções efetivas que já tenham sido devidamente testadas. Refundamos mecanismos antigos e retrógrados para dar a essas pessoas o que é delas por direito: sua cachaça, sua pedra de craque, sua favela, sua oprimida obscuridade. “Nosso mundo precisa ser limpo, que morram estes trastes!”.

Se olharmos bem para todas essas ideias que correm pelo meio de nossos círculos de amigos, podemos perceber algumas coisas. Gostaria de ressaltar duas em especial. Primeiro: atrás de um discurso integrador, supostamente caloroso e pacífico, há cicatrizes profundas que anos de colonização, escravidão e preconceito geraram em nossa sociedade.

Talvez isto não seja tão claro como em outros lugares do mundo, mas há certamente um grande ideário racista implícito em nosso jeito de agir. Esse discurso oficial vazio de que estamos livres do preconceito só clareia uma coisa: o quão pouco de amor que temos uns pelos outros. Não vou nem entrar no panorama mundial, não é preciso: fiquemos somente com o Brasil. O número de assassinatos aumenta a cada dia, assim como escândalos de corrupção política; abusos por parte das forças policiais; sistemas de saúde que não atendem às demandas básicas da nossa sociedade. Não é preciso entrar em maiores detalhes: todos sabemos do que estou falando.

E é a partir deste ponto que entramos no segundo fator que eu gostaria de ressaltar: quem é, realmente, o problema social do Brasil? Os coitados que nada têm e que precisam lutar por um pouco de dignidade? Ou seríamos nós, donos do acesso aos direitos políticos, a uma vida cultural estável e estabelecida, a recursos financeiros e intelectuais, nós que nada fazemos? Reclamamos por sentirmos que classes fragilizadas estão recebendo muita atenção – atenção estas que nós, supostamente, não mais ganhamos. Criamos um incrível discurso que classifica como preconceituoso(a) aquele(a) cidadão(ã) que quer fazer valer seus direitos assegurados pela constituição brasileira.

Estudantes que recebem benefícios do governo condenam aqueles que passarão a receber mais vantagens, aqueles que anteriormente nada tinham. Doentes que recebem tratamento pelo SUS ostracizam os moribundos que nunca foram contemplados com alguma perspectiva de ter uma saúde decente. Fazendeiros matam aqueles que nunca tiveram acesso a um pedaço de chão para plantar seu próprio sustento.

O mais incrível é que tudo isso acontece debaixo de nossos narizes. E nós costumamos cagar e andar pra tudo isso. O máximo que fazemos é escrever uma nota de repúdio ou um texto crítico, como este, para afirmar o quão chocados estamos com o rumo das coisas. Mas e o que fazemos, na verdade? Ficamos sentados em frente a nossos computadores, recebendo nossos gordos salários na segurança de nosso bem guardado lar.

Fingimos compaixão somente para nos sentirmos bem conosco mesmo. Se há uma greve, apoiamo-la sem sair de casa. Se há corrupção, condenamo-la à distância. Se há bêbados que espancam suas famílias ou viciados que roubam para sustentar seu vício, fazemos uma expressão consternada quando o assunto surge em meio a mais uma rodada de cerveja. Se alguém diz que não há amor no mundo, concordamos sem pensar duas vezes – e no próximo dia, desprezamos o primeiro pedido desesperado por um punhado de caridade.

Garçom fecha essa conta que eu preciso dar o fora daqui! Vou pra cama agora, dormir bem e esquecer tudo isso quando acordar. Por que é assim: alguns sofrem em silêncio, outros bebem, alguns fumam enquanto outros idiotas escrevem.

Quando eles morrem, é mais fácil.



É mais fácil quando os acidentados morrem e não precisam de hospital. O peso sobre nossos bolsos e sobre os segundos caixas dos gestores públicos é menor. É mais fácil para aquele pobre diabo, que não vai passar o resto da vida sem andar, sofrendo com dores e falta de acessibilidade. Quando eles morrem, é mais fácil para o espetáculo da morbidez humana: o circo se arma e o círculo se fecha ao redor do morto - e ali naquela beira de estrada, todos os observadores fingem estarem se sentindo mal, mas lá no fundo, agradecem por não ter sido com eles. Mas se o pobre diabo não morre, aí não é nada fácil. Os gritos atrapalham a sensação de alívio, fazem ela ser substituída pela culpa e pela impotência - e até pela vergonha daquele sombrio pensamento de "por que ele não morre?".

É mais fácil quando os viciados morrem e não precisam de internação em hospital nenhum. Eles não ficam espreitando nossas vidas, prontos para nos tirar o suado salário do mês em troca de alguns instantes de êxtase. É mais fácil quando eles morrem e não ficam na rua sujando a nossa moral coletiva ou construindo suas favelas imundas. É melhor quando eles morrem e poupam sua família do peso da doença. Só não é fácil quando eles não morrem e ficam ali, como um tumor exposto à luz do sol, como uma doença altamente contagiosa, uma lepra social, que mostra pro mundo nossos problemas e nos faz lembrar, no nosso âmago, que a culpa é realmente nossa.

É mais fácil quando os pobres morrem e não precisam de serviço de saúde público, educação pública ou apoio governamental. Quando eles partem dessa pra melhor, porque qualquer coisa é melhor para esses pobres bastardos que sua vida, nos poupam vários reais em impostos: Sobra mais vagas nas boas escolas para que nossos filhos estudem de graça, sobra mais vagas nos hospitais para que nossos doentes se tratem de graça, sobra uma porção maior do orçamento público para melhorar nossos queridos bairros A e B. Só é duro quando eles insistem em viver naquela merda de vida, chafurdando na imundice e roubando nossa paz de alma. Quando eles não morrem, a mancha não vai embora e os nossos pecados se refletem em cada suspiro de cada mendigo, no rosto de cada criança que pede um troco pra poder comer.

É mais fácil quando os homens morrem e não precisam mais nos mostrar o quão falhos eram. A memória é maleável e pode escolher o que vai lembrar e o que vai esquecer: quando eles morrem, só lembramos das coisas boas. As estátuas nas praças e os nomes das ruas nos dizem que grandes homens construíram essa cidade, esse Estado, esse país - se não fossem por eles, hoje estaríamos entregues aos portugueses, aos comunistas ou aos pobres. Quando eles morrem, podemos dar vivas aos nossos heróis nacionais. Mas quando os safados resolvem ficar vivos, aí a coisa se complica. Vemos que eles costumam fazer mais besteiras do que boas coisas; ouvimos suas opiniões preconceituosas que nos deixam envergonhados porque, em grande parte, lembram muito daquelas tendências nossas que gostamos de deixar escondidas nos cantos sombrios das nossas mentes, reservadas às íntimas rodas de amigos.

É mais fácil quando a Verdade morre e não precisa ser exibida em praça pública. Quando ela morre, podemos relativizar as coisas e deixar que todos tenham direito ao seu próprio ponto de vista - desde que eles tenham a cor e o dinheiro certos. Sem Verdade, podemos nos entregar aos nossos desejos ignóbeis, desde que eles não sejam vistos por muita gente. Quando a verdade morre, é mais fácil de continuar vivendo sem lembrar da culpa - o que restam são doces lembranças de infância distorcidas. Às vezes ela teima em descansar pra sempre, é uma brigadora, todavia há sempre uma boa alma disposta a manter as coisas na mais santa paz. Mas quando a danadinha não morre, aí tudo tem que ser o que é, e quem não se esconde, mané, tem que ter suíngue no pé.

Sobre ciência política

Entre falsos abraços e elusivas promessas
escondem-se as maiores dores do coração
Doces sorrisos revelam subliminares ameaças
Vidas vazias vagam no alento da vulgarização.

Soam solidárias as elegias dos anjos celestes
que do centro do paraíso sorriem aos mortais.
De espada em riste, é dura a vida no agreste
onde se mata a dignidade por uns trocados a mais.

O hálito maculado pela podridão da doce morte
inebria os olhos e ilude qualquer velha inocência
que se revista de honestidade de qualquer sorte.

Antigos costumes ainda vivem sem muita decência
e ainda encontram neste mundo renovados aportes.
Finda aqui qualquer esperança na política ciência.

Um novo dia, um novo mundo.

Sei que eu tinha prometido voltar à ativa, mas fui deixando as coisas meio de lado... E por isso, peço desculpas! Vou tentar, novamente, manter estas paragens mais atualizadas de agora em diante. Ando escrevendo bastante e sinto a necessidade de compartilhar um pouco disso com o mundo.

Tem dias que a gente acorda, mas preferia não acordar. Pensando bem, seria melhor dizer que são poucos os dias em que realmente queremos acordar. Quem aqui gosta de trocar uma cama quente e um mundo onde somos quem queremos ser, onde as coisas acontecem sempre para nosso melhor? É claro que há os pesados, mas não são eles que costumam preencher nosso sono, não é mesmo?
Mas levantar é preciso. Ao menos, foi o que me disseram a vida toda. Levantar e ir pra escola. Levantar e ir pra missa. Levantar e ir pro trabalho. Levantar e ir pro caixão. Bom, isso ninguém nunca fala... Mas fica implícito, não? Passamos tanto tempo estudando, trabalhando e rezando que dificilmente vemos a vida passar, nós raramente nos damos o tempo necessário pra aproveitar a vida... Um dia eu me dei conta disso. Em cada nova oportunidade que nos levantamos, estamos dando só mais um passo em direção ao túmulo.
Onde fica esse tempo que nos falta, então? Alguém, com certeza, têm de estar tirando ele de nós, certo? Mas não. Nós mesmos nos privamos de ter uma vida há muito tempo atrás – alguns diriam que foi em outra encarnação. Quando aceitamos, enquanto espécie, que queríamos ser uma sociedade baseada no progresso, nos condenamos à escravidão. Somos prisioneiros do relógio, constantemente acossados pelas metas e os objetivos. É vencer ou morrer tentando, e o meio termo significa a exclusão.
Quando foi a última vez que levantou atrasado, despreocupado, e deu uma boa olhada no céu? Quando foi a última vez em que você tirou uns minutos para se embasbacar? Aposto que há anos você não desperdiça horas tentando entender o porquê você é tão infeliz – não, ao invés de fazer um esforço desses, você vai ao médico e paga para ele lhe dizer que você está doente e que precisa deste ou daquele remédio. Mas sejamos sinceros: quem aqui não faz isso? É normal, aceitável e até desejável que você faça isso – saudável, eles dizem -, afinal, alguém precisa pagar as contas.
Mas suponho que o mundo seja um grande aglomerado desses paradoxos, não? Você trabalha para ter dinheiro para aproveitar a vida, mas na hora da diversão, está cansado demais e precisa recarregar as baterias pra trabalhar. Você é politicamente correto e nada preconceituoso, mas adora xingar alguém de “viado”. Você não é racista, só não acha que pessoas de outra cor sejam atraentes. Você é defensor dos animais, pode até não comer carne, mas ainda consume produtos que exploram os animais. Você é revolucionário e diz que as classes mais baixas precisam se politizar, mas passa sua vida trancado no gabinete da universidade ou na casa de seus pais que recebem alguns milhares de reais por mês.
Não se sintam ofendidos, caros leitores, isso não é especificamente para atingir vocês ou a mim. A culpa é de todos nós. O que temos feito do nosso mundo e de nossas vidas? Quanto tempo já jogamos fora debatendo os problemas do mundo, para depois irmos para o aconchego de nossas camas na maior paz de consciência? Devo fazer o mea culpa e admitir que este texto não me torna um ser superior, sequer diferente de vocês.
Já perdi a fé na humanidade diversas vezes, e em muitas dessas ocasiões foi por minha própria culpa. Sei que não sou bom exemplo de ser humano e que, provavelmente, muitas pessoas já desistiram de acreditar porque eu, assim como outros antes de mim, não pude dar o moral que era requisitado. Mas se minha fé já foi perdida várias vezes, é porque ela foi reconquista repetidamente, não é mesmo?
Pequenos atos de humanidade são o suficiente para fazer o dia brilhar mais. Um sacrifício pessoal em prol do próximo torna o mundo mais suportável. É claro que não acho que isso seja um desapego genuíno – a ideia consciente pode vir a ser essa, mas na maior parte das vezes é um descarrego de consciência. Mas de qualquer forma, seja verdadeiro ou só um alívio, ajudar o mundo a respirar é necessário.
Proponho aqui uma mudança pequena que pode ser posta em prática desde já: ao acordar amanhã, sorria para a pessoa que está ao seu lado. Se você estiver sozinho, pegue seu café e dê uma bela contemplada na paisagem que está lá do lado de fora de sua janela. A beleza da vida está escondida bem debaixo dos seus olhos, nos lugares aparentemente mais inusitados. Mesmo o tom cinza que domina as grandes cidades pode dar uma nova luz à sua vida.

Não vamos levar a música à "luta de classes", por favor!

Há uns dias atrás, um conhecido meu postou uma atualização em seu Facebook que me deixou intrigado; resolvi ler pra ver qual era a do pastel. O texto era de um dos blogs do jornal Estadão e falava sobre como as pessoas que ouvem rock estão tendo vantagem na hora de conseguir emprego. Vi que muita gente aplaudiu o texto do Marcelo Moreira (para quem quiser ler a matéria, é só entrar AQUI!), se mostrando revoltado contra os “incultos” que só ouvem o “lixo comercial”.

Bom, meu último texto falava sobre os rumos que nossa sociedade está tomando e como isso estava influenciando a produção musical, mas procurei não entrar no mérito do gosto de cada um. Talvez isto não tenha ficado tão claro, então agora à luz deste ensaio do Marcelo Moreira, vou tentar entrar um pouco nessa discussão de preferência musical pessoal.

É preciso dizer que fiz (e ainda estou fazendo) um esforço enorme para não julgar o gosto alheio, afinal é como dizem por aí: “gosto não se discute” (até acho que se discute, só não se valora). Pra quem me conhece, isso tudo pode soar meio estranho, afinal, eles sabem o quanto eu sou chato e implicante pra música (bom, na verdade, não é só com música que eu implico, mas isso é outra história). Admito que erro muito nesse ponto; a arrogância me é característica, infelizmente, e ela escapa nas minhas palavras sem que eu me dê conta na hora. Esse lance de falar tudo de “cabeça quente” já me rendeu muitos problemas na vida (meus queridos amigos, que me aturam, que o digam).

Então, vocês se perguntam: “se o próprio autor é preconceituoso, por que diabos vou ler o que ele escreve?”. E eis a resposta: estou tentando fazer uma análise critica do texto em questão (“Gostar de rock começa a pesar na avaliação profissional”) e dos preconceitos que criamos em relação à música. Eu sei que, pessoalmente, eu não vou mudar do dia pra noite em relação à implicância com a “música ruim”, e nem espero que ninguém aí vá mudar sua vida depois de ler isto aqui. Mas uma tentativa se faz necessária, não é mesmo?

Bom, chega de enrolação! Vamos ao que interessa!

Primeiramente, vi que muita criticou as pessoas que gostam de funk carioca, sertanejo universitário, Restart e etc. O que elas, talvez, não levem em consideração é que o blues, o jazz e o próprio rock, no momento de seus “adventos” não foram aceitos como unanimidade, e antes de eles se estabelecerem como “clássicos”, muita coisa comercial (boa e ruim) foi feita, discriminada, comprada e vendida. O único jeito de saber mesmo se “a moda vai pegar”, é esperar: neste sentido, o tempo acaba virando o senhor da razão. A maioria das bandas de rock das quais lembramos são as que foram mais famosas na época (e não necessariamente as melhores): quantos grupos morreram antes de chegar ao reconhecimento?

Acho que ta na hora de a gente pegar mais leve com quem faz música e começar a criticar quem a reproduz. Piadas à parte, não há problema em existir Restart, Furacão 2000, Michel Teló e afins. O problema é quando apenas este tipo de produção tem espaço na mídia. Se há uma grande “culpada” nisso tudo, esta é a grande mídia, que decide quem ou o quê vai ganhar mais tempo no ar.

Se, por exemplo, todas as rádios tivessem uma grade de programação que dividisse igualmente o tempo para todos os estilos musicais, ao invés de passar 95% do dia reproduzindo o “lixo comercial”, aposto que mais gente gostaria de mais coisas. Mas essa reprodução exaustiva dos mesmos materiais acaba “viciando” o ouvido das pessoas que dependem destes veículos de comunicação para terem acesso à informação, à música ou ao que seja.

Em segundo lugar, o autor, Marcelo Moreira, e também muitas das pessoas que comentaram no texto parecem querer classificar as pessoas que ouvem rock (e, ainda de acordo com eles, jazz, blues, música erudita, etc) como mais cultas do que as outras. Acho que isso é uma armadilha perigosa. Este tipo de definição sobre o que é e o que não é cultura, é justamente o que, décadas atrás, relegou o blues, o jazz e o rock a um papel marginal na sociedade. Se eles conseguiram quebrar essas barreiras, não foi sem mérito ou luta.

Acho que não podemos julgar a competência (nem a inteligência) de uma pessoa apenas pelo seu gosto musical. Se, coincidentemente, as pessoas citadas no exemplo apresentado no texto eram mais “antenadas”, isto não é porque elas ouviam determinado tipo de som. Penso que estas pessoas pesquisaram diferentes tipos de música justamente por serem mais “ligadas”, e não o contrário. Voltando à questão da mídia, é preciso, realmente, ter algum diferencial para poder ter a independência de se buscar o que quer, e não o que nos é ditado pelas regras do jogo social.

(Se acalmem, estamos chegando aos finalmente) O que quero dizer é: temos que parar com essa besteira de acharmos que somos melhores do que fulano, ciclano e beltrano por causa do que ouvimos ou lemos (eu, em especial, preciso aprender urgentemente essa lição). A cultura é diferente, dinâmica, mas nunca melhor ou pior. Uma sociedade ideal seria aquela onde não precisaríamos discutir estas coisas, brigar tanto por um centímetro de repercussão, pois cada tipo de pessoa teria seu devido espaço. 

No mais, eras wilson, gurizada! Aquele abraço e até a próxima!

A música hoje em dia...

Estive lendo, na semana passada, a introdução do livro "Vidas para Consumo", de Zygmunt Bauman. Ao longo do curto texto, o autor introduz o que pretende desenvolver durante o livro, como toda introdução deve ser. E o que realmente importa: Bauman começa a explicar como as coisas funcionam na nossa sociedade de consumo, o imediatismo das relações virtuais e como as pessoas estão se transformando em produtos.

Enquanto estava imerso na minha leitura, acabou me ocorrendo algo relativo à música: nós que gostamos de música dos anos 30, 40, 50, 60, 70 (e assim por diante), o mundo parece não fazer muito sentido. Quando ouvimos as atuais canções que fazem sucesso, não conseguimos entender como alguém pode gostar daquilo. Mesmo que esta música tenha retirado, claramente, sua inspiração da música afro-americana (o blues, o jazz e o soul, mais especificamente), em nada parece se relacionar. A fronteira entre o talento dos artistas e dos produtores, técnicos e computadores está evanescendo.

Como Bauman disse sobre nossa sociedade, se não estamos integrados às redes (sejam elas de sociabilidade, consumo, ou o que for), estamos virtualmente mortos para a sociedade. Então, dinossauros precoces como eu (que aos 22 anos não consigo gostar da música da minha geração), estão (quase literalmente) em extinção. O que importa hoje em dia, mais do que nunca, é a capacidade de marketing de um produto (seja ele uma pessoa, uma roupa ou mesmo a arte). Através das mídias formadoras de opinião e do talento de gerenciamento de algumas pessoas que sabem o que o grosso do povo quer, forma-se novos (e descartáveis) astros a cada dia. Este é, no fim das contas, o imediatismo da nossa sociedade: a cada dois meses é lançado um novo celular ou computador, a cada semestre surgem novos “heróis do rock”, que tocam tudo, menos o dito rock.

Uma vez li um texto de Ricardo Seelig, editor dos blogs Collectors’ Room e Why Dontcha, sobre o porquê de a música dos anos 60 parecer tão melhor do que a que é feita hoje em dia. Ricardo, grande fã de música (em especial de rock e de metal), afirmava que as bandas de rock dos anos 60 eram mais criativas porque se inspiravam no blues, no soul, no jazz; e que hoje em dia, as bandas estão buscando suas raízes nas bandas de rock dos anos 60 (70, 80 e 90). O desfecho não poderia ser outro senão o desgaste das ideias da música, elas são a “cópia da cópia”, por assim dizer.

Mas eu vou além daquilo que o Ricardo falou: eu diria que a nossa sociedade, como um todo, é menos inspirada que a das décadas anteriores. A nossa falta de sonhos coletivos (afinal, vivemos no mundo do “eu”), de utopias e de politização (acreditamos que política é a partidária, e que cidadania é votarmos a cada dois anos) tem nos levado a um abismo ético, moral e intelectual. Estamos sem rumo: a crise financeira assolando o mundo, e a Europa em especial; a corrupção generalizada de nossos representantes no governo... Ninguém sabe dizer o que será do dia de amanhã.

Essa é, para mim, a maior diferença que a música atual tem para aquela música que tanto amamos: falta politização, falta conteúdo. É claro que em décadas passadas muitas das canções que faziam sucesso abordavam temas “bobos”, mas ainda o faziam de forma mais séria e competente do que vemos hoje. Olhem, por exemplo, para as letras da música atual: crianças de 16 anos cantando sobre amor (como se tivessem vivido o suficiente para saber algo sobre isso), caras falando sobre carros e vadias, mulheres falando sobre caras e jóias. Em que diabos de mundo estamos vivendo, afinal?

Com toda essa merda por aí, não é de se admirar que a música esteja tão fodida. Ela está assim, ferrada, porque nós estamos constantemente nos ferrando. Acho que está na hora de pararmos para pensar um pouco sobre o que queremos da nossa vida e do nosso mundo. Só mudando o paradigma da nossa sociedade é que poderemos voltar a ver florescer a criatividade no meio musical.

Tentando voltar à ativa

Bom, galera, sei que o blog andou largado às traças, mas pretendo voltar a postar por aqui frequentemente. Aliás, queria fazer um convite aos amigos (que eventualmente leiam este apelo) que escrevem poesia: se estiverem afim de publicar, estamos abertos para novos membros. Quero manter isso aqui funcionando a todo vapor!

E para recomeçar, vou postar na sequência meu mais novo poema, que se chama "Brasil". Apesar da sugestão do nome e dos rumos que ele tomou, o intuito inicial era de fazer uma reflexão sobre como temos pouco tempo para ler (e compreender o que estamos lendo) e para ouvir música (e realmente escutá-la). No fim, a coisa desandou e acabou assim:

"O tempo soterra. O mundo devora. Não há espaço para quem erra. Não se ouve mais quem chora. Na terra dos loucos, todos trabalham. Não há mais tempo para viver. Os dias se atulham. Não há para onde correr. A cada esquina, respira a impunidade. Em cada casa, reside o medo. É uma derrota por unanimidade. Não se conta a liberdade nem nos dedos.

Dê um tempo, campeão. Acenda o cigarro. Vende seus olhos e dê as costas ao paredão. Agüente as dores e os escarros. Em algum lugar, na calada da noite. Um último suspiro antes do fuzilamento. Afogue o grito ante o açoite. Dar a outra face? A palavra de um homem morto. Saia e cace. A dor do anonimato será seu conforto.

O jogo começa e o tempo curto. Deitado em berço esplêndido. Esperando pelo fatídico surto. A fagulha que desperta o incêndio. Com os culhões numa bandeja de prata. E o coração numa estaca de madeira. O justo aqui se maltrata. O honesto se tornará poeira.

Produção serial de animais. Enjauladas em sua própria loucura. Animação de assassinos seriais. Ansiosos por uma inexistente cura. É o aperto de mãos. Cordialmente hipócrita e verdadeiro. Nas costas, carrega o bastão. Todos esperam o momento derradeiro.

E aqui tudo acaba. Como começou, terminou. Uma dança macabra. Por quantos dias lhes animou? No mundo sem tempo. No tempo sem cabeça. Dias de tédio sem passatempos. O trabalho que lhe prega peças. Quantas poesias foram lidas? Quantas músicas foram ouvidas? O que foi realmente lido e ouvido? Nada do que está aqui contido.

Em ricos verdes palácios. Com cartas, construídos. Sob a égide de desejos opiáceos. Lar de sonhos destruídos. Sob a luz do céu profundo. Dormes em seio forte. Faustosos e rotundos. Que vivem da Sorte. Artimanhas friamente elaboradas. Dos tempos imemoriais. Que a Justiça seja eternamente caçoada. Pelos desígnios dos doutores imperiais."

Uma pequena reflexão.

Salve, salve, galerinha do mal. Desta vez não vou atormentar vocês, meus caros leitores imaginários, com outra das minhas malfadadas poesias. Vou expor alguns devaneios meus acerca de um tema que muito me preocupa, e que, curiosamente, surgiu na aula de Teorias da História esta noite.

Seguinte: uma das minhas grandes críticas ao mundo acadêmico é o fato de ele ser hermético, ou seja, se encontra fechado para o mundo exterior. É como uma pérola presa dentro da concha. E este fato gera um grande afastamento entre a produção historiográfica recente e os livros didáticos. Jim Sharpe, citando David Cannadine, já expressava sua preocupação com isso na perspectiva britânica:

"grande parte desta nova versão profissional britânica foi completamente afastada da grande audiência legai, cuja satisfação de sua curiosidade sobre o passado nacional foi um dia a principal função da história. Um resultado paradoxal deste período de expansão sem precedentes foi que cada vez mais os historiadores acadêmicos estavam cada vez mais escrevendo uma histórica acadêmica que cada vez menos pessoas realmente liam" (CANNADINE apud SHARPE, 1992)

Isso nos leva a pensar outro problema: qual o valor da nossa produção acadêmica? Michel de Certeau vai dizer que o importante é o "reconhecimento pelos pares" (DE CERTEAU, 1982). Ora, o que isso significa? Que a produção histórica só é válida se for reconhecida por historiadores. Voltamos, novamente, à questão da hermeticidade do mundo acadêmico, que cada vez mais soa como um "clube fechado", cujos benefícios são disponíveis somente aos seus associados.

Claro que não tenho a intenção de dizer que métodos mais rígidos não sejam necessários para se abordar as fontes, para constituir a historicidade de uma obra. Mas é preciso notar que cada vez mais nós, (futuros e atuais) historiadores profissionais, nos afastamos do grande público, que tem a necessidade do acesso ao conhecimento que produzimos. Caso escrevamos apenas para nós mesmos, que valor tem nossos livros? Nenhum! O conhecimento precisa circular, precisa ser adquirido por todos para que possamos viver numa sociedade mais ativa, intelectual e politicamente.

Partindo desta análise desse cárcere no qual se encontra nossa produção historiográfica, quero chegar a um assunto ainda mais sério: nossa educação.

Bem sabemos que nossa educação pública, em nível de base, é deficiente. Poucos professores, estrutura insuficiente, má remuneração e todas essas coisas que tanto já foram faladas por muitas pessoas pelo Brasil afora. É por isso que não vou discorrer sobre isso. Quero falar sobre algumas estruturas sociais que influem na nossa educação.

Nosso sistema de ensino é tecnicista, apesar de que, de acordo com a LDB, seja necessária a formação de cidadãos. Nossas escolas tratam de "preparar" os alunos para o vestibular e para o mercado de trabalho, ignorando seu desenvolvimento pleno para o exercício da cidadania. Mas isto vai além de uma mera lei imposta de cima para baixo, indiferente aos interesses que ela buscou responder. Temos que notar que nós, enquanto sociedade, pressionamos nossas escolas para que formem nossos filhos, irmãos, sobrinhos e etc adequadamente para o vestibular e para o mercado de trabalho. Curiosamente, a mesma preocupação não se repete no que trata à formação política deles. Não nos importa que eles nada (ou quase nada) entendam de democracia, dos processos políticos que nos cercam a cada minuto de nossa vida.

Mas vejam bem, isso é comum na nossa sociedade. Há bastante tempo nos preocupamos muito com nossa (sobre)vivência imediata, sem buscar grandes reflexões sobre a melhoria das nossas condições de VIDA (entendendo aí, tudo o que nos cerca: nossa relação com o meio ambiente, nossa relação conosco, nossa relação com nossos vizinhos, etc). Salvo raras exceções (que, normalmente, se encontram enclausuradas dentro do mundo hermético da academia, produzindo dentro de gabinetes), não fazemos essa atividade crítica e reflexiva. Precisamos, pelo contrário, nos preocupar em conseguir a comida para o almoço, a cama para dormir. Por tanto, para que nossos filhos não passem pelas mesmas privações que nós, exigimos do sistema que eles sejam melhor formados, para que tenham melhores cargos que nós. Doce ilusão.

Aliás, por falar em sistema, o que é esse tal sistema? Uma instituição monstruosa, que nos oprime, que nos submete à sua vontade e que nos rege. Ok, mas... o que é esta instituição? Uma idéia meramente abstrata, que representa o poder vigente do Estado. E o que é o Estado? Outra idéia abstrata que representa um grupo identificado de, pasmem, PESSOAS. Sim, nós, pessoas, constituimos o Estado e, por tanto, o sistema. Por tanto, sempre que dizemos que "o sistema é podre" estamos culpando a nós mesmos pela podridão. Mas claro que logo se tratou de afastar essa idéia mais palpável de sistema do inconsciente coletivo. É muito mais fácil atribuir culpa a uma representação abstrata do que a nós mesmos. Outro dos vícios de nossa sociedade: sempre tirar o nosso da reta.

Espero que entendam que esse texto é uma reflexão pessoal, fruto da minha vivência, das minhas leituras e das minhas observações. Não tive a pretensão de dar um cunho acadêmico a este textículo, apesar das pequenas citações (apenas as achei pertinentes ao assunto). Espero que gostem (ou não), e que comentem.

Abraço, pessoas!

Uma nota sobre tragédias...

Há quase um dia, vem chovendo direto no Rio de Janeiro. A cidade está um caos, com várias áreas alagadas. O prefeito da cidade, Eduardo Paes, recomendou que as pessoas não saiam de casa, se possível. Já o governador do estado, Sérgio Cabral, alerta para que as pessoas que moram em áreas de risco abandonem suas residências o mais rápido possível. O número de mortos já beira os 80.

Nessas horas, vendo, ouvindo e lendo relatos, fico pensando na falta de infraestrutura das grandes cidades brasileiras. O lixo acumulado nas ruas da cidade é incrível.

Minha sincera esperança para que esta situação seja findada o mais breve possível (E também para que a Aline esteja bem) fica aqui relatada.

Às famílias das vítimas, meus pêsames.

O mundo é bizarro, indeed.

Todos sabem que eu sou gordo e que não sou a favor dos padrões de beleza estabelecidos em nossa sociedade como forma de vida, mas li agora há pouco, no Globo.com, uma notícia que me deixou assustado. Nessa onda social de sempre vencer, de sempre querer ser o melhor em algo, não importando o custo, surge uma americana pra lá de estranha: Donna Simpson, de 42 anos e pesando 273 quilos.

Vejam só, Donna está numa luta pra entrar no Guinness Book como a mulher mais gorda do mundo. Já não lhe basta seu título de "maior mãe do mundo" (tinha 235 quilos quando deu à luz sua primeira filha, Jacqueline). "Adoraria pesar 453 kg", foi o que ela disse numa entrevista ao jornal Telegraph. Apesar disso, a dona aí ainda se considera uma pessoa saudável. Veio ela com a seguinte declaração: "Minha comida preferida é sushi. Consigo comer 70 pedaços de sushi de uma vez só". Alguém me explica onde que comer setenta pedaços de sushi numa sentada é saudável?

É só impressão, ou tem algo muito errado com o mundo? Algumas mulheres buscam a extrema magreza para serem aceitas na sociedade, para serem melhores que as outras. Esta mulher busca a gordura extrema para entrar no Guinness e se destacar, nem que de uma forma jocosa (na minha opinião). Essa lógica capitalista de vencer sempre está levando as pessoas à loucura. Estes modos de vida geram apenas angústia, ansiedade e vazio. E nestes casos estéticos, gera também problemas de saúde não relacionados ao cérebro.

Para quem quiser conferir a notícia e uma foto da Donna, eis o link: Globo.com

R.I.P.

Estou escrevendo para prestar minhas condolências à família do cartunista Glauco e de seu filho, Raoni, assassinados em sua própria casa. O assassino, de acordo com a polícia, era conhecido da família e frequentava a mesma igreja que os dois.

Acho que está mais do que na hora de pararmos um minuto para refletir sobre nossa sociedade. Pessoas morrem por discussões, por futilidades. E não me refiro só ao Glauco, por ele ser famoso. Meu padrinho perdeu um filho de uma forma parecida... e quantas pessoas não perderam algum conhecido ou parente assim também?

Enfim, acho que devemos repensar seriamente na estrutura da sociedade em que vivemos. Devemos buscar meios de pacificar e civilizar nosso cotidiano. Quantas pessoas ainda precisam morrer para fazermos algo a respeito? Claro, é mais fácil ignorar o que acontece ao nosso redor, nos trancarmos em casa e continuar vivendo com uma falsa sensação de insegurança que mascara a verdadeira paranóia e o constante medo que nos cerca.

Chega de hipocrisia, minha gente, a coisa já está mais do que crítica.

Uma homenagem ao trabalho do Glauco:






Festa na floresta

Inúmeras brancas explosões
perpetuadas por tolos bisões
Espalham-se pelo mundo afora
a cada minuto, até mesmo agora

Esquálidas gralhas berram
contorcendo-se em ávida fome
Ao passo em que uns mamam
aos outros, tudo some

Os pobres ratos vivem nas fezes
E os galos só tomam banho às vezes
Quando chove muito
Ou em outro acaso fortuito

Mataram o moribundo guaxinim
que ciscava no lixo alheio
No mesmo lugar, ceava o mastim
Sem preocupação ou anseio

E os cálices ao léu
reinam em qualquer bordel
Enquanto os passarinhos
ficam mudos, tão tristinhos

Mas deixe estar, deixe estar
Nessa época de ímpar bacanal
Tristeza é mais rara que o ar
Afinal, todos celebram o carnaval

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